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Quarta-feira, 24 de Fevereiro de 2016
Momento de Poesia

A Musa em férias

 

Recordam-se vocês do bom tempo d'outrora,

Dum tempo que passou e que não volta mais,

Quando íamos a rir pela existência fora

Alegres como em Junho os bandos dos pardais?

C'roava-nos a fronte um diadema d'aurora,

E o nosso coração vestido de esplendor

Era um divino Abril radiante, onde as abelhas

Vinham sugar o mel na balsâmina em flor.

Que doiradas canções nossas bocas vermelhas

Não lançaram então perdidas pelo ar!...

Mil quimeras de glória e mil sonhos dispersos,

       Canções feitas sem versos,

E que nós nunca mais havemos de cantar!

Nunca mais! nunca mais! Os sonhos e as esp'ranças

São áureos colibris das regiões da alvorada,

Que buscam para ninho os peitos das crianças.

E quando a neve cai já sobre a nossa estrada,

E quando o Inverno chega à nossa alma,então

Os pobres colibris, coitados, sentem frio,

E deixam-nos a nós o coração vazio,

Para fazer o ninho em outro coração.

Meus amigos, a vida é um Sol que chega ao cúmulo

Quando cantam em nós essas canções celestes;

A sua aurora é o berço, e o seu ocaso é o túmulo

Ergue-se entre os rosais e expira entre os ciprestes.

Por isso, quando o Sol da vida já declina,

Mostrando-nos ao longe as sombras do poente,

É-nos doce parar na encosta da colina

E volver para trás o nosso olhar plangente,

Para trás, para trás, para os tempos remotos

Tão cheios de canções, tão cheios de embriaguez,

Porque, ai! a juventude é como a flor do lótus,

Que em cem anos floresce apenas uma vez.

 

E como o noivo triste a quem morreu a amante,

E que ao sepulcro vai com suas mãos piedosas

Sobre um amor eterno — o amor dum só instante —

Deixar uma saudade e uma c'roa de rosas;

Assim, amigos meus, eu vou sobre um tesouro,

Sobre o estreito caixão, pequenino, infantil,

Da nossa mocidade, — a cotovia d'ouro

Que nasceu e morreu numa manhã d'Abril! —

Desprender, desfolhar estas canções sem nexo,

Estas pobres canções, tão simples, tão banais,

Mas onde existe ainda um pálido reflexo

Do tempo que passou, e que não volta mais.

 

Guerra Junqueiro, in 'A Musa em Férias'

publicado por Alegria às 20:41
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