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Quarta-feira, 27 de Maio de 2015
Momento de Poesia

 

A Escola Portuguesa

 

Eis as crianças vermelhas

Na sua hedionda prisão:

Doirado enxame de abelhas!

O mestre-escola é o zangão.

 Em duros bancos de pinho

Senta-se a turba sonora

Dos corpos feitos de arminho,

Das almas feitas d'aurora.

 Soletram versos e prosas

Horríveis; contudo, ao lê-las

Daquelas bocas de rosas

Saem murmúrios de estrela.

 Contemplam de quando em quando,

E com inveja, Senhor!

As andorinhas passando

Do azul no livre esplendor.

 Oh, que existência doirada

Lá cima, no azul, na glória,

Sem cartilhas, sem tabuada,

Sem mestre e sem palmatória!

 E como os dias são longos

Nestas prisões sepulcrais!

Abrem a boca os ditongos,

E as cifras tristes dão ais!

 Desgraçadas toutinegras,

Que insuportáveis martírios!

João Félix co'as unhas negras,

Mostrando as vogais aos lírios!

 Como querem que despontem

Os frutos na escola aldeã,

Se o nome do mestre é — Ontem

E o do discíp'lo — Amanhã!

 Como é que há-de na campina

Surgir o trigal maduro,

Se é o Passado quem ensina

O b a ba ao Futuro!

 Entregar a um tarimbeiro

Um coração infantil!

Fazer o calvo Janeiro

Preceptor do loiro Abril!

 Barbaridade irrisória,

Estúpido despotismo!

Meter uma palmatória

Nas mãos dum anacronismo!

 A palmatória, o açoite,

A estupidez decretada!

A lei incumbindo a Noite

Da educação da Alvoradal

 Gravai na vossa lembrança

E meditai com horror,

Que o homem sai da criança

Como o fruto sai da flor.

 Da pequenina semente,

Que a escola régia destrói,

Pode fazer-se igualmente

Ou o assassino ou o herói.

 Desta escola a uma prisão

Vai um caminho agoireiro:

A escola produz o grão

De que a enxovia é o celeiro.

 Deixai ver o Sol doirado

À infância, eis o que eu vos peço.

Esta escola é um atentado,

Um roubo feito ao progresso.

 Vamos, arrancai a infância

Da lama deste paul;

Rasgai no muro Ignorância

Trezentas portas de azul!

 O professor asinino,

Segundo entre nós ele é,

Dum anjo extrai um cretino,

Dum cretino um chimpanzé.

 Empunhando as rijas férulas

Vós esmagais e partis

As crianças — essas pérolas

Na escola — esse almofariz.

 Isto escolas!... que índecência

Escolas, esta farsada!

São açougues de inocência,

São talhos d'anjos, mais nada.

 

Guerra Junqueiro, in 'A Musa em Férias'

publicado por Alegria às 21:06
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