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Quarta-feira, 17 de Dezembro de 2014
Momento de Poesia

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 Ao deixar a aldeia - do livro:  "Poesias" de Julio Dinis

 Partes! A longes terras
Vais procurar riqueza;
E eu, morta de tristeza,
Fico sàzinha aqui!
Leva-te destes montes
Uma ambiciosa ideia,
E eu nesta pobre aldeia
Fico pensando em ti.
 
Tentar fortuna ao longe!
Ó pobre e amado louco!
Não sabes tu que pouco
Basta p´ra ser feliz?
Porque não has-de achá-la,
E o bem que assim procuras,
Aqui, entre as verduras
Do teu e meu país?
 
Mas vai, mas parte. É sorte!
Vai, segue o teu caminho,
Ave que deixa o ninho
Onde feliz viveu.
Vai, e dos mares volta-teÀs vezes deste lado,
E o meu olhar magoado
Encontrará o teu.
 
E lá por outras terras,
Lá nesse clima novo,
Lembra-te o humilde povo
Em que vives-te em paz;
Lembra-te ainda o afecto,
Ai, deixas-me que o diga,
Da pobre rapariga
Que nunca mais verás.
 
Dizem que nessas terras
Há bosques e florestas
Mais verdes do que estas
Que temos por aqui;
Que há aves mais formosas,
Que há árvores maiores,
E tantas, tantas flores,
Como eu ainda não vi.
 
Se fôr assim, quem pode
Ter ainda uma esperança
Que guardes a lembrança,
Sob esses novos céus,
Dos soutos, das devesas,
Dos pássaros, das fontes,
Dos pinheirais dos montes,
A que disses-te adeu?
 
Porém lembra-te ao menos
Que aqui onde nasceste,
À sombra do cipreste,
Dormem teus velhos pais;
Por longe que tu andes,
Man da-lhes uma prece;
Esquece embora, esquece,
P´ra sempre tudo o mais.
 
Toma esta cruz benzida
Para a trazeres contigo;
Crê que em qualquer perigo
Ela te valerá!
Depois...talvez que ao vê-la
Te lembres algum dia
Daquela que a trazia,
Da triste que ta dá.
 
E se, passados anos,
Saudoso enfim voltares,
De novo a estes lugares
Que deixas amanhã,
Entra no cemitério,
E da erva entre a verdura
Verás a campa obscura
Da tua...pobre irmã.
 
É força partir! Vamos,
Vai alta a lua. É tarde.
Há muito que já arde
O fogo no meu lar.
Ai, quantas vezes, quantas
Ali vinhas sentar-te!
E agora...e agora...Parte,
E deixa-me chorar.
 
Perdoa-me este pranto;
É o ultimo que choro
Vai...vai...não te demoro
Mais com lamentos meus.
Bem vês, já estou contente,
Vai.. sê feliz e rico,
E eu...eu alegre fico
Com minha mãe...Adeus!  (Fim)
 
 
 

 

 

publicado por Alegria às 16:39
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