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Segunda-feira, 26 de Janeiro de 2015
Lendas da nossa terra

A Velha Porcalhota

 

  Ora, então como é que a Porcalhota se tornou Amadora, sobretudo como é que apareceu aquele

topónimo tão bizzaro? E, depois, como é que os coelhos surgem nesta lenda? Se formos a Pinho Leal,

 ficamos a saber que a Poraclhota, é diminuitivo de Porcalha, significando leitoa. Em meados do século XIX

esta terra pertencia a Benfica. Não eram mais de 359 casas e uma ermida a Nossa Senhora da Conceição

de Lapa. E havia Porcalhota de Cima e Porcalhota de Baixo, separadas por uma calçada. Pois a origem lendária

da Amadora remonta ao século XIV, à Porcalhota, que é o núcleo populacional mais antigo do espaço da actual

Amadora. Este topónimo procedia do dono destas terras, Vasco Porcalho, que também era alcaide de Vila Viçosa.

Na crise de 1383-1385, este fidalgo, como muitos outros da velha nobreza portuguesa, apoiou D. João de Castela

como rei legítimo, o que mais tarde o obrigou a fugir do reino. Herdou-lhe as propriedades, a filha, fidalga, a quem

as gentes chamavam Porcalhota! Ficou assim a zona a chamar-se terras da Porcalhota. Convenhamos, com

Delfim Guimarães, que se tratava de um nome malsonante e arreliador! Mas atenção, tudo o que aqui se conta

é do foro da lenda...

O século XVIII fez da Porcalhota uma zona de lazer da aristocracia sediada em Lisboa. Aqui se multiplicaram

pequenos palácios em quintas de recreio. Mas, de repente, surge a verdadeira lenda desta povoação, que se ia

compondo como um "puzzle" - chama-se Pedro dos Coelhos. E para a escrever nada melhor que Júlio César

Machado, que a divulgou no Diário de Noticias.

"Há tanto tempo já que aquela casa amanha os coelhos como proveito e glória que, em o dono da locanda indo

chamá-los ao pátio, já eles vão por si mesmos formar em linha e oferecer as orelhas para levar o piparote e

morrer. Lê-se na parede "Antiga casa do belo petisco do coelho", o trém para em frente, à sua porta vêm-se

mendigos. De um lado, tenda de balcão, do outro, uma nesga de caminho para a cozinha; ao fundo, uma porta

para o quintal e outra para a casa onde se come. Na cozinha, uma velha, uma corcundinha e um rapagão

esbelto e ágil." Júlio César Machado era um gastrónomo, e quando pincelava prosas assim, não se lhe podia

ir à mão porque decerto acabara de comer uma refeição de lenda!

O Pedro dos Coelhos é a mais lendária figura da Amadora e o seu pretígio pede meças aos grandes cozinheiros

da não menos grande Lisboa! Bastará chamarmos a testemunhar Mendonça e Costa, que em 1887, nas

páginas da revista Ocidente, narrava que determinado  indivíduo das bandas de Sete Rios comia em casa coelho

em todas as refeições por imposição da mulher. Ora, farto daquilo, mudou-se para a Porcalhota e calhou-lhe

sentar-se à mesa do Pedro dos Coelhos. Diz o cronista, que o conheceu, que nesse dia o coelho soube-lhe a porco!

Pedro Franco se chamava o Pedro dos Coelhos, e terá nascido nos primeiros anos do reinado de D. Maria II

falecendo com sessenta e tal anos em 1906 pou 1907. Mas desde que enviuvou não foi mais o mesmo.

Mas se morreu o homem, ficou a sólida lenda!

 

 

publicado por Alegria às 20:46
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