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Terça-feira, 29 de Dezembro de 2015
Momento de Poesia

Na Mão de Deus

 

Na mão de Deus, na sua mão direita,

Descansou afinal meu coração.

Do palácio encantado da Ilusão

Desci a passo e passo a escada estreita.

 

Como as flores mortais, com que se enfeita

A ignorância infantil, despojo vão,

Depois do Ideal e da Paixão

A forma transitória e imperfeita.

 

Como criança, em lôbrega jornada,

Que a mãe leva ao colo agasalhada

E atravessa, sorrindo vagamente,

 

Selvas, mares, areias do deserto...

Dorme o teu sono, coração liberto,

Dorme na mão de Deus eternamente!

 

Antero de Quental, in "Sonetos"

 

O Sono de João

 O João dorme... (Ó Maria,

Dize áquella cotovia

Que falle mais devagar:

Não vá o João, acordar...)

 

Tem só um palmo de altura

E nem meio de largura:

Para o amigo orangotango

O João seria... um morango!

Podia engulil-o um leão

Quando nasce! As pombas são

Um poucochinho maiores...

Mas os astros são menores!

 

O João dorme... Que regalo!

Deixal-o dormir, deixal-o!

Callae-vos, agoas do moinho!

Ó mar! falla mais baixinho...

E tu, Mãe! e tu, Maria!

Pede áquella cotovia

Que falle mais devagar:

Não vá o João, acordar...

 

O João dorme... Innocente!

Dorme, dorme eternamente,

Teu calmo somno profundo!

Não acordes para o mundo,

Póde affogar-te a maré:

Tu mal sabes o que isto é...

 

Ó Mae! canta-lhe a canção,

Os versos do teu irmão:

«Na Vida que a Dor povoa,

Ha só uma coisa boa,

Que é dormir, dormir, dormir...

Tudo vae sem se sentir.»

 Deixa-o dormir, até ser

Um velhinho... até morrer!

 

E tu vel-o-ás crescendo

A teu lado (estou-o vendo

João! Que rapaz tão lindo!)

Mas sempre, sempre dormindo...

 

Depois, um dia virá

Que (dormindo) passará

Do berço, onde agora dorme,

Para outro, grande, enorme:

E as pombas que eram maiores

Que João... ficarão menores!

 

Mas para isso, ó Maria!

Dize áquella cotovia

Que falle mais devagar:

Não vá o João, acordar...

 

E os annos irão passando.

 Depois, já velhinho, quando

(Serás velhinha tambem)

Perder a cor que, hoje, tem,

Perder as cores vermelhas

E for cheiinho de engelhas:

Morrerá sem o sentir,

Isto é deixa de dormir...

Acorda e regressa ao seio

De Deus, que é d'onde elle veio...

 

Mas para isso, ó Maria!

Pede áquella cotovia

Que falle mais davagar:

 Não vá o João, acordar...

 

António Nobre, in 'Só'

 

publicado por Alegria às 21:00
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Domingo, 13 de Dezembro de 2015
Momento de Poesia

 

Solidariedade

 

Irmão.

Se caíste e a tua queda te levou a comer o pó,

Se procuras-te com teus olhos outros olhos

E ficas-te, como sempre, vazio e só;

Se naufragas-te lutando sem outra intenção,

Senão a de salvares os que vegetam na podridão,

Murmura comigo uma oração

E não chores, nem te envergonhes

Porque não serão as grades de uma cela

A desfazer a nossa fraterna união.

Embora fracassado, vencido, desiludido.

Luta, luta sempre até seres vencedor!

Eu e tu de mãos dadas com amor

Iremos sempre mais além,

Até as forças nos obedecerem.

À nossa volta, muitos rirão,

Mas que importa

Quando os nossos corpos de humano nada tiveram.

Talvez os tais que apregoavam de porta em porta

A nossa loucura...

Talvez então nos dêm razão.

 

Regresso ao Lar

 

Ai, há quantos anos que eu parti chorando

deste meu saudoso, carinhoso lar!...

Foi há vinte?... Há trinta?... Nem eu sei já quando!...

Minha velha ama, que me estás fitando,

canta-me cantigas para me eu lembrar!...

 

Dei a volta ao mundo, dei a volta à vida...

Só achei enganos, decepções, pesar...

Oh, a ingénua alma tão desiludida!...

Minha velha ama, com a voz dorida.

canta-me cantigas de me adormentar!...

 

Trago de amargura o coração desfeito...

Vê que fundas mágoas no embaciado olhar!

Nunca eu saíra do meu ninho estreito!...

Minha velha ama, que me deste o peito,

canta-me cantigas para me embalar!...

 

Pôs-me Deus outrora no frouxel do ninho

pedrarias de astros, gemas de luar...

Tudo me roubaram, vê, pelo caminho!...

Minha velha ama, sou um pobrezinho...

Canta-me cantigas de fazer chorar!...

 

Como antigamente, no regaço amado

(Venho morto, morto!...), deixa-me deitar!

Ai o teu menino como está mudado!

Minha velha ama, como está mudado!

Canta-lhe cantigas de dormir, sonhar!...

 

Canta-me cantigas manso, muito manso...

tristes, muito tristes, como à noite o mar...

Canta-me cantigas para ver se alcanço

que a minha alma durma, tenha paz, descanso,

quando a morte, em breve, ma vier buscar!

 

Guerra Junqueiro, in 'Os Simples'

 

 

 

publicado por Alegria às 20:44
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Domingo, 6 de Dezembro de 2015
Mometo de Poesia

Amigo

 

Se alguma vez descobres.

Que olho para teus olhos.

E um veio de amor reconheces nos meus.

Não penses que deliro.

Pensas simplesmente que podes contar comigo.

Se outras vezes me encontras zangado sem motivo.

Não penses que é fraqueza.

Assim mesmo podes contar comigo.

Mas façamos um trato.

Eu quisera contar contigo.

É tão lindo saber que existes,sente-se vivo.

E quando digo isso,não é para que venha correndo em meu auxilio.

Se não para que saibas.

Que tu sempre podes contar comigo.

 

O DESALENTO

 

Se tu soubesses o que é o desalento

Da noite imensa, escutando o vento,

No deserto da dor e da saudade...

Se gritasses ao vento palavras de verdade...

Se soubesses o que é andar na vida

Ao sabor das marés, barca perdida,

No mar morte de ilusão e dos desejos...

Se te queimasse a boca o cáustico dos beijos,

Se fosses uma folha abandonada no caminho

Ave afastada do calor do seu ninho

Entregue ao vaivém da desgraça e da sorte,

Se te quebrassem as asas e desejasses a morte

Se soubesses o que é ter um coração

E arrancá-lo do peito com dura e férrea mão

Se partisses o coração como eu partí

Para não o deixar partir de amor por tí

Se sentisses na alma a labareda forte

Dum amor que vence a vida e há-de vencer a morte

Talvez então soubesses compreender

Quanto o coração de um homem pode sofrer.

 

João Rodrigues (1967)

 

 

 

publicado por Alegria às 22:00
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Quarta-feira, 2 de Dezembro de 2015
Momento de Poesia

A Caridade

Eu podia falar todas as línguas

Dos homens e dos anjos;

Logo que não tivesse caridade,

Já não passava de um metal que tine,

 De um sino vão que soa.

Podia ter o dom da profecia,

Saber o mais possível,

Ter fé capaz de transportar montanhas;

Logo que eu não tivesse caridade,

 Já não valia nada!

Eu podia gastar toda afortuna

 A bem dos miseráveis,

Deixar que me arrojassem vivo às chamas;

Logo que eu não tivesse caridade,

 De nada me servia!

A caridade é dócil, é benévola,

 Nunca foi invejosa,

  Nunca procede temerariamente,

  Nunca se ensoberbece!

Não é ambiciosa; não trabalha

 Em seu proveito próprio; não se irrita;

Nunca suspeita mal!

Nunca folgou de ver uma injustiça;

Folga com a verdade!

Tolera tudo! Tudo crê e espera!

Em suma tudo sofre!

 

João de Deus, in 'Campo de Flores'

 

 

Amizade

 Ser-se amigo é ser-se pai

( — Ou mais do que pai talvez...)

É pôr-se a boca onde cai

A nódoa que nos desfez.

 

É dar sem receber nada,

Consciente da prisão,

Onde os nossos passos vão

Em linha por nós traçada...

 

É saber que nos consome

A sede, e sentirmos bem

O Céu, por na Terra, alguém

Rir, cantar e não ter fome.

 

É aceitar a mentira

E achá-la formosa e humana

Só porque a gente respira

O ar de quem nos engana.

 

Pedro Homem de Mello, in "Miserere"

publicado por Alegria às 20:47
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Terça-feira, 1 de Dezembro de 2015
Momento de Poesia

Porque o Povo Diz Verdades

 

Porque o povo diz verdades,

Tremem de medo os tiranos,

Pressentindo a derrocada

Da grande prisão sem grades

Onde há já milhares de anos

A razão vive enjaulada.

 

Vem perto o fim do capricho

Dessa nobreza postiça,

Irmã gémea da preguiça,

Mais asquerosa que o lixo.

 

Já o escravo se convence

A lutar por sua prol

Já sabe que lhe pertence

No mundo um lugar ao sol.

 

Do céu não se quer lembrar,

Já não se deixa roubar,

Por medo ao tal satanás,

Já não adora bonecos

Que, se os fazem em canecos,

Nem dão estrume capaz.

 

Mostra-lhe o saber moderno

Que levou a vida inteira

Preso àquela ratoeira

Que há entre o céu e o inferno.

 

António Aleixo, in "Este Livro que Vos Deixo..."

publicado por Alegria às 20:48
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