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Quarta-feira, 29 de Abril de 2015
Momento de Poesia

Manhã de Inverno

 

Coroada de névoas, surge a aurora

Por detrás das montanhas do oriente;

Vê-se um resto de sono e de preguiça,

Nos olhos da fantástica indolente.

 

Névoas enchem de um lado e de outro os morros

Tristes como sinceras sepulturas,

Essas que têm por simples ornamento

Puras capelas, lágrimas mais puras.

 

A custo rompe o sol; a custo invade

O espaço todo branco; e a luz brilhante

Fulge através do espesso nevoeiro,

Como através de um véu fulge o diamante.

 

Vento frio, mas brando, agita as folhas

Das laranjeiras úmidas da chuva;

Erma de flores, curva a planta o colo,

E o chão recebe o pranto da viúva.

 

 

 Gelo não cobre o dorso das montanhas,

Nem enche as folhas trêmulas a neve;

Galhardo moço, o inverno deste clima

Na verde palma a sua história escreve.

 

Pouco a pouco, dissipam-se no espaço

As névoas da manhã; já pelos montes

Vão subindo as que encheram todo o vale;

Já se vão descobrindo os horizontes.

 

Sobe de todo o pano; eis aparece

Da natureza o esplêndido cenário;

Tudo ali preparou co’os sábios olhos

A suprema ciência do empresário.

 

 

Canta a orquestra dos pássaros no mato

A sinfonia alpestre, — a voz serena

Acordo os ecos tímidos do vale;

E a divina comédia invade a cena.

 

Machado de Assis, in 'Falenas'

publicado por Alegria às 21:13
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Segunda-feira, 27 de Abril de 2015
Para meditar

 

Virgilio Ferreira - 28-01-1916-1-3-1996.jpg

 

 

O Homem não Deseja a Paz

Que estranho bicho o homem. O que ele mais deseja no convívio inter-humano não é afinal a paz, a concórdia, o sossego colectivo. O que ele deseja realmente é a guerra, o risco ao menos disso, e no fundo o desastre, o infortúnio. Ele não foi feito para a conquista de seja o que for, mas só para o conquistar seja o que for. Poucos homens afirmaram que a guerra é um bem (Hegel, por exemplo), mas é isso que no fundo desejam. A guerra é o perigo, o desafio ao destino, a possibilidade de triunfo, mas sobretudo a inquietação em acção. Da paz se diz que é «podre», porque é o estarmos recaídos sobre nós, a inactividade, a derrota que sobrevém não apenas ao que ficou derrotado, mas ainda ou sobretudo ao que venceu. O que ficou derrotado é o mais feliz pela necessidade iniludível de tentar de novo a sorte. Mas o que venceu não tem paz senão por algum tempo no seu coração alvoroçado. A guerra é o estado natural do bicho humano, ele não pode suportar a felicidade a que aspirou. Como o grupo de futebol, qualquer vitória alcançada é o estímulo insuportável para vencer outra vez.

Imaginar o mundo pacificado em aceitação e contentamento consigo é apenas o mito que justifique a continuação da guerra. A paz é insuportável como a pasmaceira. Nas situações mais vulgares, nós vemos a imperiosa necessidade de desafiar, irritar, provocar, agredir, sem razão nenhuma que não seja a de agitar a quietude, destruir a estagnação, fazer surgir o risco, a aventura. É o que leva o jogador a jogar, mesmo que não necessite de ganhar, pelo puro prazer de saborear o poder perder para a hipótese de não perder e ganhar. A excelência de nós próprios só se entende se se afirmar sobre o que o não é.

Numa sociedade de ricaços ninguém era feliz. Seria então necessário que por qualquer coisa houvesse alguns felizes sobre a infelicidade dos outros. O homem é o lobo do homem para que este possa ser o cordeiro daquele. Nenhuma luta se destina a criar a justiça, mas apenas a instaurar a injustiça. O homem é um ser sem remédio. Todo o remédio que ele quiser inventar é só para sobrepor a razão ao irracional que de facto é. Toda a história das guerras é uma parada de comédia para iludir a sua invencível condição de tragédia. A verdade dele é o crime. E tudo o mais é um pretexto para o disfarçar. A fábula do lobo e do cordeiro já disse tudo. A superioridade do homem sobre o lobo é que ele tem mais imaginação para inventar razões. A superioridade do homem sobre o lobo é que ele tam mais hábitos de educação. E a razão é uma forma de sermos educados.

 

Vergílio Ferreira, in 'Conta-Corrente IV'

publicado por Alegria às 22:20
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Sábado, 25 de Abril de 2015
Momento de Poesia

Romance de uma Freira indo às Caldas

 

Belisa, aquela beldade,

Cujas perfeições são tais,

Que a formosura e juízo

Vivem nela muito em paz;

Aquela Circe das almas,

Cuja voz sempre será

Encanto dos alvedrios

E o pasmo de Portugal;

Enferma, bem que sublime,

De uns achaques mostras dá,

Pois às deidades também

Os males se atrevem já.

Por se livrar das moléstias

Que a costumam magoar,

Se negou remédio às vidas,

Por remédio às Caldas vai.

Aquele sol escondido

Entre as nuvens de um saial,

Se ocaso faz de um convento,

Do campo eclíptica faz.

 

 

Mas, logo que os campos lustra,

Alento e desmaios dá

Ao dia para luzir,

Ao Sol para se eclipsar.

Aos prados, a quem o Estio

Despe a gala natural,

Quando os olhos podem ver,

Flores tornam a enfeitar.

Dando-lhe a música os bosques

Com citara de cristal,

Parece entre os ramos verdes

Cada rouxinol um Brás.

A viração que entre as folhas

Sempre buliçosa está,

Ou já murmure ou suspire,

Faz de cada assopro um ai.

Cuido que, por festejá-la

Com contentamento igual,

As fontes querem tanger

E as plantas querem bailar.

 

Frei António das Chagas, in 'Fénix Renascida'

publicado por Alegria às 18:59
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Quinta-feira, 23 de Abril de 2015
Momento de poesia

 

 

 

Com os Mortos

 

Os que amei, onde estão? Idos, dispersos,

arrastados no giro dos tufões,

Levados, como em sonho, entre visões,

Na fuga, no ruir dos universos...

 

E eu mesmo, com os pés também imersos

Na corrente e à mercê dos turbilhões,

Só vejo espuma lívida, em cachões,

E entre ela, aqui e ali, vultos submersos...

 

Mas se paro um momento, se consigo

Fechar os olhos, sinto-os a meu lado

De novo, esses que amei vivem comigo,

 

Vejo-os, ouço-os e ouvem-me também,

Juntos no antigo amor, no amor sagrado,

Na comunhão ideal do eterno Bem.

 

   Miguel Torga

 

 

publicado por Alegria às 22:07
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Sexta-feira, 17 de Abril de 2015
Momento de poesia

Evolução

 

Fui rocha em tempo, e fui no mundo antigo

tronco ou ramo na incógnita floresta...

Onda, espumei, quebrando-me na aresta

Do granito, antiquíssimo inimigo...

Rugi, fera talvez, buscando abrigo

Na caverna que ensombra urze e giesta;

O, monstro primitivo, ergui a testa

No limoso paúl, glauco pascigo...

Hoje sou homem, e na sombra enorme

Vejo, a meus pés, a escada multiforme,

Que desce, em espirais, da imensidade...

Interrogo o infinito e às vezes choro...

Mas estendendo as mãos no vácuo, adoro

E aspiro unicamente à liberdade.

Antero de Quental, in "Sonetos"

 

publicado por Alegria às 18:46
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Quinta-feira, 16 de Abril de 2015
Momento de poesia

 

Conta e Tempo

 

Deus pede estrita conta de meu tempo.

E eu vou do meu tempo, dar-lhe conta.

Mas, como dar, sem tempo, tanta conta

Eu, que gastei, sem conta, tanto tempo?

Para dar minha conta feita a tempo,

O tempo me foi dado, e não fiz conta,

Não quis, sobrando tempo, fazer conta,

Hoje, quero acertar conta, e não há tempo.

Oh, vós, que tendes tempo sem ter conta,

Não gasteis vosso tempo em passatempo.

Cuidai, enquanto é tempo, em vossa conta!

Pois, aqueles que, sem conta, gastam tempo,

Quando o tempo chegar, de prestar conta

Chorarão, como eu, o não ter tempo...

Frei António das Chagas, in 'Antologia Poética

 

publicado por Alegria às 20:41
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Terça-feira, 7 de Abril de 2015
Momento de poesia

 

João de Deus.jpg

 

 

Saudade

Tu és o cálix;

Eu, o orvalho!

Se me não vales,

Eu o que valho?

Eu se em ti caio

E me acolheste

Torno-me um raio

De luz celeste!

Tu és o collo

Onde me embalo,

E acho consolo,

Mimo e regalo:

A folha curva

Que se aljofara,

Não d'agoa turva,

Mas d'agoa clara!

Quando me passa

Essa existencia,

Que é toda graça,

Toda innocencia,

Além da raia

D'este horizonte—

Sem uma faia,

Sem uma fonte;

O passarinho

Não se consome

Mais no seu ninho

De frio e fome,

Se ella se ausenta,

A boa amiga,

Ah! que o sustenta

E que o abriga!

Sinto umas magoas

Que se confundem

Com as que as agoas

Do mar infundem!

E quem um dia

Passou os mares

É que avalia

Esses pezares!

Só quem lá anda

Sem achar onde

Sequer expanda

A dôr que esconde;

Longe do berço,

Morrendo á mingoa,

Paiz diverso...

Diversa lingoa...

Esse é que sabe

O meu tormento,

Mal se me acabe

Aquelle alento!

Ah, nuvem branca

Ah, nuvem d'oiro!

Ninguem me estanca

Amargo choro;

E assim que passes

Mesmo de largo...

Vê n'estas faces

Se ha pranto amargo.

 

Tu és o norte

Que me desvias

De ir dar á morte

Todos os dias;

A larga fita

Que d'alto monte

Cerca e limita

O horizonte!

Tu és a praia

Que eu sollicito!

Tu és a raia

D'este infinito!

Se ha uma gruta

Onde me esconda

Á força bruta

Que traz a onda;

Á força immensa

D'esta corrente

D'alma que pensa,

Alma que sente;

Se ha uma véla,

Se ha uma aragem,

Se ha uma estrella,

N'esta viagem...

É quem eu amo,

A quem adoro!

E por quem chamo!

E por quem choro!

 

João de Deus, in 'Ramo de Flores'

 

 

 

 

publicado por Alegria às 20:44
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