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Segunda-feira, 30 de Março de 2015
Momento de poesia

Quem Diz que Amor é um Crime

 

Quem diz que amor é um crime

Calunia a natureza,

Faz da causa organizante

Criminosa a singeleza.

Que vejo, céus! Que não seja

De uma atracção resultado?

Atracção e amor é o mesmo;

Logo amor não é pecado.

Se respiro, a atmosfera,

Com um fluido combinado,

É quem me sustenta a vida

Dentro do peito agitado.

Se vejo mares, se fontes,

Rio, cristalino lago,

Dois gases se unem, formando

Aguas com que a sede apago.

Uma lei de afinidade

Se acha nos corpos terrenos;

Ácidos, metais, alcalis,

Tudo se une mais ou menos.

De que sou feita? – De terra;

Nela me hei de converter:

Se amor arder em meu peito

É da essencia do meu ser.

Sem que te ofenda razão,

Quero defender o amor;

Se contigo não concorda

Não é virtude, é furor.

 

Marquesa de Alorna, in 'Antologia Poética'

 

 

 

publicado por Alegria às 21:27
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Sexta-feira, 27 de Março de 2015
Momento de poesia

 

Melancolia

Oh dôce luz! oh lua!

Que luz suave a tua,

E como se insinua

Em alma que fluctua

De engano em desengano!   

 Oh creação sublime!

A tua luz reprime

As tentações do crime,

E á dôr que nos opprime

Abres-lhe um oceano!

É esse céo um lago,

E tu, reflexo vago

D'um sol, como o que eu trago

No seio, onde o afago,

No seio, onde o aperto?    

Oh luz orphã do dia!

Que mystica harmonia

Ha n'essa luz tão fria,

E a sombra que me guia

N'este areal deserto!

Embora as nuvens trajem

De dia outra roupagem,

O sol, de que és imagem,

Não tem essa linguagem

Que encanta, que namora!   

 Fita-te a gente, estuda,

(Sem mêdo que se illuda)

Essa linguagem muda...

O teu olhar ajuda...

E a gente sente e chora!

Ah! sempre que descrevas

A orbita que levas,

Confia-me o que escrevas

De quanto vês nas trevas,

Que a luz do sol encobre!  

  As victimas, que escutas,

De traças mais astutas

Que as d'essas féras brutas...

E as lastimas, as luctas

Da orphã e do pobre!

João de Deus, in 'Ramo de Flores'

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Sábado, 21 de Março de 2015
Momento de poesia

Os Ministros da Pena

Eu não sei como não treme a mão a todos os ministros de pena, e muito mais àqueles que sobre um joelho aos pés do rei recebem os seus oráculos, e os interpretam, e estendem. Eles são os que com um advérbio podem limitar ou ampliar as fortunas; eles os que com uma cifra podem adiantar direitos, e atrasar preferências; eles os que com uma palavra podem dar ou tirar peso à balança da justiça; eles os que com uma cláusula equívoca ou menos clara, podem deixar duvidoso, e em questão, o que havia de ser certo e efectivo; eles os que com meter ou não meter um papel, podem chegar a introduzir a quem quiserem, e desviar e excluir a quem não quiserem; eles, finalmente, os que dão a última forma às resoluções soberanas, de que depende o ser ou não ser de tudo. Todas as penas, como as ervas, têm a sua virtude; mas as que estão mais chegadas à fonte do poder são as que prevalecem sempre a todas as outras. São por ofício, ou artifício, como as penas da águia, das quais dizem os naturais, que postas entre as penas das outras aves, a todas comem e desfazem. Padre António Vieira, in 'Sermões'

publicado por Alegria às 22:38
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Quinta-feira, 19 de Março de 2015
Momento de poesia

 

 

 

 

Ser Doido-Alegre, que Maior Ventura!

 

Ser doido-alegre, que maior ventura!

Morrer vivendo p'ra além da verdade.

É tão feliz quem goza tal loucura

Que nem na morte crê, que felicidade!

 

Encara, rindo, a vida que o tortura,

Sem ver na esmola, a falsa caridade,

Que bem no fundo é só vaidade pura,

Se acaso houver pureza na vaidade.

 

Já que não tenho, tal como preciso,

A felicidade que esse doido tem

De ver no purgatório um paraíso...

 

Direi, ao contemplar o seu sorriso,

Ai quem me dera ser doido também

P'ra suportar melhor quem tem juízo.

 

António Aleixo, in "Este Livro que Vos Deixo..."

publicado por Alegria às 21:00
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Terça-feira, 17 de Março de 2015
Momento de poesia

 

 

Antonio Botto.jpg

 

 

Quem não Ama não Vive

 

Já na minha alma se apagam

As alegrias que eu tive;

Só quem ama tem tristezas,

Mas quem não ama não vive.

 

Andam pétalas e fôlhas

Bailando no ár sombrío;

E as lágrimas, dos meus olhos,

Vão correndo ao desafio.

 

Em tudo vejo Saudades!

A terra parece mórta.

- Ó vento que tudo lévas,

Não venhas á minha pórta!

 

E as minhas rosas vermelhas,

As rosas, no meu jardim,

Parecem, assim cahidas,

Restos de um grande festim!

 

Meu coração desgraçado,

Bebe ainda mais licôr!

- Que importa morrer amando,

Que importa morrer d'amôr!

 

E vem ouvir bem-amado

Senhor que eu nunca mais vi:

- Morro mas levo commigo

Alguma cousa de ti.

 

António Botto, in 'Canções'

 

publicado por Alegria às 14:10
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Sexta-feira, 13 de Março de 2015
Momento de poesia

 

 

 

Momento de Poesia

 

 

 

Camilo Castelo Branco.jpg

A Graça

 

Que harmonia suave

É esta, que na mente

Eu sinto murmurar,

Ora profunda e grave,

Ora meiga e cadente,

Ora que faz chorar?

Porque da morte a sombra,

Que para mim em tudo

Negra se reproduz,

Se aclara, e desassombra

Seu gesto carrancudo,

Banhada em branda luz?

Porque no coração

Não sinto pesar tanto

O férreo pé da dor,

E o hino da oração,

Em vez de irado canto,

Me pede íntimo ardor?

 

És tu, meu anjo, cuja voz divina

Vem consolar a solidão do enfermo,

E a contemplar com placidez o ensina

De curta vida o derradeiro termo?

 

Oh, sim!, és tu, que na infantil idade,.

Da aurora à frouxa luz,

Me dizias: «Acorda, inocentinho,

Faz o sinal da Cruz.»

És tu, que eu via em sonhos, nesses anos

De inda puro sonhar,

Em nuvem d'ouro e púrpura descendo

Coas roupas a alvejar.

És tu, és tu!, que ao pôr do Sol, na veiga,

Junto ao bosque fremente,

Me contavas mistérios, harmonias

Dos Céus, do mar dormente.

És tu, és tu!, que, lá, nesta alma absorta

Modulavas o canto,

Que de noite, ao luar, sozinho erguia

Ao Deus três vezes santo.

És tu, que eu esqueci na idade ardente

Das paixões juvenis,

E que voltas a mim, sincero amigo,

Quando sou infeliz.

Sinta a tua voz de novo,

Que me revoca a Deus:

Inspira-me a esperança,

Que te seguiu dos Céus!...

 

Alexandre Herculano, in 'Antologia Poética'

publicado por Alegria às 20:56
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Segunda-feira, 9 de Março de 2015
Para meditar

VALE A PENA LER!

Naquela noite, enquanto minha esposa servia o jantar, eu segurei sua mão e disse: "Tenho algo importante para te dizer". Ela se sentou e jantou sem dizer uma palavra. Pude ver sofrimento em seus olhos.

De repente, eu também fiquei sem palavras. No entanto, eu tinha que dizer a ela o que estava pensando. Eu queria o divórcio. E abordei o assunto calmamente.

Ela não parecia irritada pelas minhas palavras e simplesmente perguntou em voz baixa: "Porquê?" Eu evitei respondê-la, o que a deixou muito brava. Ela jogou os talheres longe e gritou "você não é homem!" Naquela noite, nós não conversamos mais. Pude ouví-la chorando. Eu sabia que ela queria um motivo para o fim do nosso casamento. Mas eu não tinha uma resposta satisfatória para esta pergunta. O meu coração não pertencia a ela mais e sim a Jane. Eu simplesmente não a amava mais, sentia pena dela.

Me sentindo muito culpado, rascunhei um acordo de divórcio, deixando para ela a casa, nosso carro e 30% das ações da minha empresa.

Ela tomou o papel da minha mão e o rasgou violentamente. A mulher com quem vivi pelos últimos 10 anos se tornou uma estranha para mim. Eu fiquei com dó deste desperdício de tempo e energia mas eu não voltaria atrás do que disse, pois amava a Jane profundamente. Finalmente ela começou a chorar alto na minha frente, o que já era esperado. Eu me senti libertado enquanto ela chorava. A minha obsessão por divórcio nas últimas semanas finalmente se materializava e o fim estava mais perto agora.

No dia seguinte, eu cheguei em casa tarde e a encontrei sentada na mesa escrevendo. Eu não jantei, fui direto para a cama e dormi imediatamente, pois estava cansado depois de ter passado o dia com a Jane.

Quando acordei no meio da noite, ela ainda estava sentada à mesa, escrevendo. Eu a ignorei e volteia dormir.

Na manhã seguinte, ela me apresentou suas condições: ela não queria nada meu, mas pedia um mês de prazo para conceder o divórcio. Ela pediu que durante os próximos 30 dias a gente tentasse viver juntos de forma mais natural possível. As suas razões eram simples: o nosso filho faria seus exames no próximo mês e precisava de um ambiente propício para preparar-se bem, sem os problemas de ter que lidar com o rompimento de seus pais.

Isso me pareceu razoável, mas ela acrescentou algo mais. Ela me lembrou do momento em que eu a carreguei para dentro da nossa casa no dia em que nos casamos e me pediu que durante os próximos 30 dias eu a carregasse para fora da casa todas as manhãs. Eu então percebi que ela estava completamente louca mas aceitei sua proposta para não tornar meus próximos dias ainda mais intoleráveis.

Eu contei para a Jane sobre o pedido da minha esposa e ela riu muito e achou a idéia totalmente absurda. "Ela pensa que impondo condições assim vai mudar alguma coisa; melhor ela encarar a situação e aceitar o divórcio", disse Jane em tom de gozação.

Minha esposa e eu não tínhamos nenhum contato físico havia muito tempo, então quando eu a carreguei para fora da casa no primeiro dia, foi totalmente estranho. Nosso filho nos aplaudiu dizendo "O papai está carregando a mamãe no colo!" Suas palavras me causaram constrangimento. Do quarto para a sala, da sala para a porta de entrada da casa, eu devo ter caminhado uns 10 metros carregando minha esposa no colo. Ela fechou os olhos e disse baixinho "Não conte para o nosso filho sobre o divórcio" Eu balancei a cabeça mesmo discordando e então a coloquei no chão assim que atravessamos a porta de entrada da casa. Ela foi pegar o ônibus para o trabalho e eu dirigi para o escritório.

No segundo dia, foi mais fácil para nós dois. Ela se apoiou no meu peito,eu senti o cheiro do perfume que ela usava. Eu então percebi que há muito tempo não prestava atenção a essa mulher. Ela certamente tinha

envelhecido nestes últimos 10 anos, havia rugas no seu rosto, seu cabelo estava ficando fino e grisalho. O nosso casamento teve muito impacto nela.

Por uns segundos,cheguei a pensar no que havia feito para ela estar neste estado.

No quarto dia, quando eu a levantei, senti uma certa intimidade maior como corpo dela. Esta mulher havia dedicado 10 anos da vida dela a mim.

No quinto dia, a mesma coisa. Eu não disse nada a Jane, mas ficava a cada dia mais fácil carregá-la do nosso quarto à porta da casa. Talvez meus músculos estejam mais firmes com o exercício, pensei.

Certa manhã, ela estava tentando escolher um vestido. Ela experimentou uma série deles mas não conseguia achar um que servisse. Com um suspiro, ela disse "Todos os meus vestidos estão grandes para mim". Eu então percebi que ela realmente havia emagrecido bastante, daí a facilidade em carregá-la nos últimos dias.

A realidade caiu sobre mim com uma ponta de remorso... ela carrega tanta dor e tristeza em seu coração... Instintivamente, eu estiquei o braço e toquei seus cabelos.

Nosso filho entrou no quarto neste momento e disse "Pai, está na hora de você carregar a mamãe". Para ele, ver seu pai carregando sua mão todas as manhãs tornou-se parte da rotina da casa. Minha esposa abraçou nosso filho e o segurou em seus braços por alguns longos segundos. Eu tive que sair de perto, temendo mudar de idéia agora que estava tão perto do meu objetivo.

Em seguida, eu a carreguei em meus braços, do quarto para a sala, da sala para a porta de entrada da casa. Sua mão repousava em meu pescoço. Eu a segurei firme contra o meu corpo. Lembrei-me do dia do nosso casamento.

Mas o seu corpo tão magro me deixou triste. No último dia, quando eu a segurei em meus braços, por algum motivo não conseguia mover minhas pernas.Nosso filho já tinha ido para a escola e eu me vi pronunciando estas palavras:"Eu não percebi o quanto perdemos a nossa intimidade com o tempo".

Eu não consegui dirigir para o trabalho... fui até o meu novo futuro endereço,saí do carro apressadamente, com medo de mudar de idéia... Subi as escadas e bati na porta do quarto. A Jane abriu a porta e eu disse a ela "Desculpe Jane. Eu não quero mais me divorciar".

Ela olhou para mim sem acreditar e tocou na minha testa "Você está com febre?" Eu tirei sua mão da minha testa e repeti "Desculpe,Jane. Eu não vou me divorciar. Meu casamento ficou chato porque nós não soubemos valorizar os pequenos detalhes da nossa vida e não por falta de amor. Agora eu percebi que desde o dia em que carreguei minha esposa no dia do nosso casamento para nossa casa, eu devo segurá-la até que a morte nos separe.

A Jane então percebeu que era sério. Me deu um tapa no rosto, bateu a porta na minha cara e pude ouví-la chorando compulsivamente. Eu voltei para o carro e fui trabalhar.

Na loja de flores, no caminho de volta para casa, eu comprei um buquê de rosas para minha esposa. A atendente me perguntou o que eu gostaria de escrever no cartão. Eu sorri e escrevi: "Eu te carregarei em meus braços todas as manhãs até que a morte nos separe".

Naquela noite, quando cheguei em casa, com um buquê de flores na mão e um grande sorriso no rosto, fui direto para o nosso quarto onde encontrei minha esposa deitada na cama, morta.

Minha esposa estava com câncer e vinha se tratando a vários meses, mas eu estava muito ocupado com a Jane para perceber que havia algo errado com ela. Ela sabia que morreria em breve e quis poupar nosso filho dos efeitos de um divórcio - e prolongou a nossa vida juntos proporcionando ao nosso filho a imagem de nós dois juntos toda manhã. Pelo menos aos olhos do meu filho, eu sou um marido carinhoso.

Os pequenos detalhes de nossa vida são o que realmente contam num relacionamento. Não é a mansão, o carro, as propriedades, o dinheiro no banco. Estes bens criam um ambiente propício a felicidade mas não proporcionam mais do que conforto. Portanto, encontre tempo para ser amigo de sua esposa, faça pequenas coisas um para o outro para mantê-los próximos e íntimos. Tenham um casamento real e feliz!

Se você não dividir isso com alguém, nada vai te acontecer.

Mas se escolher compartilhar para alguém, talvez salve um casamento. Muitos fracassados na vida são pessoas que não perceberam que estavam tão perto do sucesso e preferiram desistir.

Valorize quem realmente te ama ... Pense nisso.

publicado por Alegria às 20:36
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